Nada de novo entre as corujas

Objetos miméticos, aqui, onde os fluxos me trouxeram; uma miríade de objetos esperando serem significados, talvez uma nova economia gramatical. Fluxos que terminam por destacar objetos, simbólicos apenas enquanto parte de um jogo de enunciações. Língua subvertida, o falar transgredido a fim de que este encontre na física das coisas um meio aquém das suas possibilidades de relações. Reposicionamento do signo: a prática de um assalto socio-simbólico na mesma medida em que este imita o esquema do contrato social; esconderijo — por entre as árvores e a represa onde eu me encontro — desta função tética de denotação e significado. A enunciação é, de fato, um trabalho árduo, lidamos com posicionamentos vacilantes, perspectivas instáveis; as vacas estão do outro lado da margem, nenhuma é vermelha; insistindo um pouco mais nestas enunciações, concretizo-as e chego ao momento de penetrar a ordem social. Mimese, afirma Kristeva, consiste precisamente nesta transgressão do tético quando a questão sobre a verdade deixa, enfim, de ser uma referência ao objeto identificado fora da linguagem; passa a referir-se, em vez disso, a um objeto que pode ser construído através da rede semiótica, embora, em última instância, também posicionado no plano simbólico, enquanto, desta vez, assumindo o seu aspecto de “verossimilhança.” Uma verossimilhança mimética como tal, não obstante, não chega a causar uma quebra no discurso da significação.

Esta mantém, outrossim, a quebra, uma vez que preserva, em certa medida, o signifcado e, com este, determinado objeto palpável. Nem verdadeiro, nem falso, o posicionamento exato deste objeto agora levanta a questão acerca do que existe de absoluto na quebra mesma a estabelecer a verdade. A mimese, bem como a linguagem poética dela inseparável, assume o papel de prevenir a dimensão tética de tornar-se teológica. Em outras palavras, segue Kristeva, elas previnem a posição da fase tética de esconder o processo semiótico que a produz. Enquanto é verdade não poder haver linguagem sem uma fase tética que estabeleça para si uma verdade, não podemos, de outra forma, dizer que toda prática de significação opere unicamente de acordo com esta fase. Isto equivaleria a considerar que o plano tético, como origem e transcendência, poderia apenas produzir — em um sentido husserliano — um discurso tautológico, uma síntese de teses, circulando sempre em torno delas mesmas.

É como a coruja que pisca, pisca por toda a noite até que, enfim, o sono pesado lhe arrebata a alma. Doce transgressão do simbólico, uma grande rede das mais variadas combinações semióticas que, por fim, nos lembram apenas que é necessário simbolizar novamente. O espelho é grande demais; o seu reflexo, contudo, é um e o mesmo. Doce transgressão, estilhaçamento do tético — e quantos espaços vazios, abandonados, inférteis ele deixa para trás. Melhor seria mesmo viver a fantasia do signo, um estado de imobilidade sem fim que, ao menos, conhece-se imóvel, estagnado. Quantos resíduos de símbolos; não, não consigo esquecê-la; ela, que assumiu tantas faces ao longo da minha existência, não consigo esquecê-la.

As sociedades arcaicas, tais como esse pássaro noturno que insiste em bicar o espelho da minha janela, conhecem bem o processo regulatório do semiótico sobre o simbólico através das suas quebras téticas — existem vários desses ao longo do estabelecimento de significantes. Pensemos o assassínio. Freud falava acerca de uma cumplicidade entre um crime em comum. Um passeio pelas estases, pelas estruturas. A morte em comunidade, fenômeno religioso. O artista, contudo, carrega consigo a morte, que sentencia de vez o tético à condição de risível dúvida, segue e semiotiza, a arte significa para ele um segundo nascimento. E o nascimento de que fala o artista está por todos os lados: nos templos, nos pagodes, nas mesquitas e nas igrejas; através de temas, ideologias, significados sociais; é o artista associal quem introduz nas profundezas do simbólico o que costumamos procurar — bem lá no topo da torre.

— Nota escrita em 30 de maio de 2025.

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