Cassava não cresce aqui

Religião: o discurso que sabe, contudo apenas o que lhe é possível saber, o que está em relação entre a homogeneidade socio-simbólica e a heterogeneidade das pulsões agindo no interior destas — e no interior destas — homogeneidades, e não é necessário repetir que a cumplicidade entre o Estado e a família restauram para si o Outro em questão, em geral de forma especulativa, quanto àquilo que não lhes é representável no plano da jouissance ou capitulável no processo de dispêndio das forças produtivas. É no livro de Levítico que atingimos um estado tal de sacralização que, a partir dos cultos sacrificiais, criadores por excelência dos sistemas de tabu, passamos a lidar mais claramente com a exclusão enquanto transgressão — aqui em uma linguagem patriarcal. Restauração do Outro, tornar simbólico o que era apenas sujeito à semiotização, prática de uma “linguagem da negociação,” nas palavras de Kristeva, entre as fronteiras da vida e da morte. A tecnologia é santificada neste era de informação. A mídia é maciçamente mítica — em um sentido barthesiano —, onde uma ideologia burguesa sempre renovável dentro de si mesma refigura o histórico em termos de um naturalismo mitificador. Como no caso do fim da aura na obra de arte, o modernismo nos força um certo entendimento reflexivo do universo mítico no qual consiste o sagrado, segundo o qual não faz mais parte, um sagrado que, todavia, persiste no pensamento humano.

Para cada divindade virtual, afinal, uma coletividade social que a atualiza constantemente no meio que a configura. Saímos todos da cabeça de um Zeus, acontece que fomentamos intrigas entre as irmãs do Olimpo. “Matrilineares,” buscava uma tese esquizofrênica explicar a questão das árvores genealógicas enquanto a professora de História Antiga pedia as contas a fim de organizar peças de teatro com divindades gregas em uma outra escola qualquer. Eliade não conseguia ler, não importavam quantas as tentativas de conjugar o seu substantivo. Cloroplastos, patos, juncos, ondas na represa e Jane Harrison, cheguei um tanto atrasado, começo de mundo. São, na verdade, os substantivos que conjugamos primeiro, durée; os verbos, socio-simbólicos, chegam e apenas delimitam depois. Quantas são as tribos indígenas que concebem a sua temporalidade de maneira adversa — e não come-se a mandioca em nenhum outro lugar senão aqui. Medea calou-se por nove anos — e eis que chegou a hora de gritar.

— Nota escrita em 26 de maio de 2025.

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