Moisés na cesta

Estou em Corinto, perto de Valentina, longe da Geometria; estou perdido no oikos, embora a minha cicatriz já tenha sido reconhecida. Outro de mais uma mulher-troca e mais uma mulher-signo. Estou no topo do enigma, na natureza delimitada pela outra extremidade do muro, sem mãe, sem irmã, sem incesto, mas também sem Miriã, longe da cesta. As vacas que avisto no outro lado da margem são manchas cuja cor mal consigo distinguir, contudo vejo que nenhuma é vermelha. Estamos no outono, não significo muito, não quero significar quatro longos calendários. E, ainda que tentasse atravessar a represa até o ponto exato onde as vacas estão, quanto mais afundasse nas águas, mais impuro me tornaria, mei niddah, mei niddah. “Nada, Horus, nada…” Mei niddah. Lázaro cava, Horus nada. Nada até o extremo de uma servidão e escapa. Manchas, manchas cada vez mais visíveis. Manchas, e um golpe, e chthonia, e nada, absolutamente nada na cesta; e nada, nada de Miriã. Não é Lázaro que cava a lei judaica e descobre os fósseis da vaca; não sou eu, tampouco; lamento. Sou a imitação de uma imitação; pura mimese. O resultado socio-simbólico de passados semióticos e de abjeção. Quanta discrepância entre o sentido literal de um êxodo que dura quarenta anos e a sua demanda por valor contemporâneo. A subjetividade judaica surgiu apenas com a imagem de joelhos dobrados ao pé da cama e o consequente desespero desvencilhado. O fim de uma peregrinação, por certo; o perdão derradeiro do Pai e, enfim, a morte.

— Nota escrita em 28 de maio de 2025.

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