Neguinha esteve aqui para me receber na madrugada do dia vinte e três. Não muita coisa mudou na clínica da Mirian, exceto que agora não notei nenhum vigilante noturno a fazer ronda meio às árvores da propriedade. A represa, frente ao deck onde eu costumava sentar e escrever, está repleta de cloroplastos, bem como alguns juncos que crescem à margem. O mistério continua a pairar sobre a ilha posicionada a oeste daqui que, não fosse o cantar dos pássaros exóticos que nela habitam, poderia-se dizer que nada acontece ali. Redes neurais aleatórias, decerto, atualizaram-se por aquelas terras, de forma que a fauna lá desenvolvida parece não compartilhar a sua realidade com nenhum outro lugar das redondezas. Quase não vemos indivíduos, exceto, vez ou outra, alguns pescadores com as suas redes. É apenas por conta de uma eventual conexão neural com os lados de cá que terminamos por receber a visita de um pássaro da outra ilha. Uma vez que pousado, portanto, nos galhos de alguma árvore determinada, recita algumas notas, o seu dialeto intraduzível, antes de partir e seguir o seu novo curso. Não há, aqui, um casal de papagaios, porém dezenas deles. Não deixa de ser, contudo, um fenômeno previsível, embora o verdadeiro objetivo — o meu, ao menos — seja que as bordas sofram um efeito de irreversibilidade por todo esplendor geométrico a partir do qual escrevo agora. A singularidade no fenômeno do cantar do pássaro naquele recorte temporal determinado, que faz-se pré-individual tanto a mim quanto ao próprio pássaro, constitui um fluxo semiótico desprovido ainda de caráter tético. É um evento de chance.
Encontro-me aqui, portanto, distante de uma ecologia das ervas daninhas; encontro-me em uma vila diferente, decerto, embora a costumeira poluição a qual costumo me submeter não seja a única questão a me preocupar agora. Pouco dos antagonismos geográficos entre oriente e ocidente herdados, acima de tudo, do século XIX podem ser observados aqui; flutuam entre a distância cada vez maior das mídias de massa, embora a televisão no quarto onde durmo insista em me lembrar que somos todos bem delimitados e acabados, nossas subjetividades, homogêneas. O mundo dos judeus e dos muçulmanos, dos terceiro-mundistas e dos desenvolvidos, enfim, todas essas dualidades que persistem através das telas, não chegam a atingir este fim de sagrado que me domina agora, este fim onde cabe a mim mesmo dar vida e significado — não poderia, afinal, ser de outra forma. Clément afirma que, de fato, a vaca era sagrada, profanas mesmo eram as suas tetas. Está tudo bem. Que sejam, enfim, sete novilhos e sete carneiros, para cada um, um altar. Sioux, língua estranha, nada francesa, expatriada, judia, língua entre línguas, helena, desesperada também. Mas o pathos no romantismo de Michelet é o que há de teleológico por si mesmo, embora seja em Goethe que cataloguemos as borboletas daqui — uma de um azul fluorescente que eu nunca havia visto antes. Eleusis, eliade — corrigiu-me a pronúncia um antigo professor cuja preocupação verbal era excessiva porém necessária: soma e suma.
— Nota escrita em 24 de maio de 2025.

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